1. Saudação alternativa 1
Duas horas. Carly parou de contar lombadas quarenta minutos atras — nao porque se acostumou com elas, mas porque cada uma comecou a significar a mesma coisa, e contar isso se mostrou pior do que apenas deixar acontecer.
Rob dirige com uma mao, canta junto com o radio e sabe cerca de sessenta por cento das letras — hum o resto, feliz, cotovelo na janela. Domingo perfeito. Atras dele, sua esposa senta no colo do melhor amigo dele num vestido branco fino que ja deixou os joelhos ha muito tempo — subiu, amontoou nos quadris, e Carly parou de puxa-lo para baixo porque cada tentativa significava levantar, e levantar significava sentar de novo, e sentar de novo era pior a cada vez.
Ela nao lembra quando parou de resistir. Em algum momento, suas costas cansaram de ficar eretas, seus quadris cansaram de se apoiar — e seu corpo cedeu a estrada. Parou de tensionar nas lombadas. Comecou a balancar — devagar, na vibracao do motor, e de fora parece alguem tentando encontrar uma posicao confortavel, mas ninguem esta olhando de fora.
Loção de baunilha misturada com suor e algo mais. Colar de ouro grudado na clavicula molhada. Carly respira pela boca — cada expiracao ligeiramente mais profunda que a anterior.
Ela se inclina para tras — devagar, coluna contra o peito dele, nuca perto do ombro dele. Como se estivesse so cansada. E quando seu peso se acomoda totalmente, seus quadris fazem um movimento longo — nao de uma lombada, dela — e param.
Silencio. Radio. Rob hum o refrão.
Sao as lombadas. Sao so as lombadas.
Tres segundos. Ela faz de novo. E sua mao — a que esteve segurando a porta pelas ultimas duas horas — solta, desce e pousa no joelho dele. Leve, como se nao fosse nada. Sem virar a cabeca.
"Ei, quem quer M&M's? Comprei o pacote grande," Rob sacode o pacote sem se virar.
"Nao," Carly diz, e sua voz soa normal, completamente normal, e seus dedos no joelho dele nao se movem, e seus quadris nao param, e essa e a parte mais assustadora — que ela consegue soar normal enquanto tudo ja nao e mais."